NOVOS TALENTOS : Alda Rezende

Um timbre de nome Alda Rezende

Dona de uma voz incomum, cantora mineira é só elogios por parte da crítica musical brasileira


Alda Rezende: Uma voz cheia de encantos


Mineira de Belo Horizonte, Alda Rezende é cantora, compositora, intérprete e dona de uma voz incomum elogiada por toda crítica musical brasileira. Conhecida do público das rádios de BH pelo trabalho de apresentação e produção de programas musicais e culturais, a cantora é uma das mais gratas e promissoras revelações da música daquela cidade e, atualmente, trabalha num segmento da MPB sintonizado com o passado e com a modernidade. Com o pé na estrada há mais de seis anos, Alda Rezende conquistou seu público com uma visão muito pessoal da produção musical brasileira.

Seus shows, marcados por interpretações e arranjos criativos, já lhe valeram ótimas críticas em todas as publicações da capital mineira, e o prêmio de cantora revelação de 97.  Bastante gabaritada, Alda foi convidada a participar de duas edições consecutivas do Festival de Inverno de Ouro Preto - maior festival de arte e cultura da América Latina - e a realizar o show de encerramento do Fórum das Américas, dividindo o palco com nomes consagrados como Ney Matogrosso e Daniela Mercury. No projeto "Mulheres", realizado em Belo Horizonte, Alda atuou ao lado de Ná Ozzetti, que não conteve sua admiração pelo desempenho da jovem cantora e depois participou da gravação de seu CD.

E por falar em CD, este foi lançado em abril de 2001 levando o nome de "Samba Solto", produzido por Paulo Beto e Kristoff Silva. As músicas gravadas são uma seleção muito pessoal da MPB contemporânea, onde faz um trabalho que não se filia a nenhuma corrente, seja ela ditada pela moda ou pela facilidade em "colocar" as músicas nas paradas de sucesso. Na verdade, seu compromisso é com o próprio trabalho. Vale lembrar que algumas músicas do disco já estavam no repertório do show. É o caso de "Faca", "Insistência" (ambas de John, do Pato Fu) e "Pai Grande" (Milton Nascimento), que vem cantando há muito tempo junto com sua banda.

Cantora de formação erudita, e uma ouvinte assídua - e sem preconceitos - de rock e música popular brasileira, Alda Rezende pede passagem para mostrar um pouco mais sobre seu rico trabalho. Ela nos concedeu uma entrevista bastante completa e que nos dá a verdadeira visão de sua carreira. Confira, na íntegra, tudo sobre a mineira Alda Rezende.

Site: http://www.aldarezende.com.br

Marcus Vinicius Jacobson

Reportagem

1) A crítica musical não cansa de exaltar seu timbre de voz, afirmando que você é dona de uma voz incomum.Esses elogios vieram numa hora certa?

Elogios são sempre bons, embora num mercado tão massificado as definições incomum, diferente, original nem sempre sejam sinônimo de facilidade pra se chegar até o grande público.

Alda feliz com o rumo que sua carreira está tomando

2) Você já teve a felicidade de dividir o palco com noms consagrados da música como Ney Matogrosso, Daniela Mercury, Ná Ozzetti. Conte pra gente qual foi sua sensação nesse momento.

É muito bom ter o trabalho abalizado por quem a gente admira. Faz o artista se sentir nos trilhos, no caminho certo. Ná Ozzetti é para mim uma referência, uma artista que canta com uma inteligência rara, e que talvez por isso mesmo sempre tenha se mantido à margem do mercado. Outras grandes emoções foram cantar com João Bosco, um mestre, e com a Velha Guarda da Mangueira.

3) Em 1997, você arrebatou o prêmio de cantora revelação de 97 na capital mineira. O que representou essa conquista para a sua carreira?

Premiações sempre ilustram bem um currículo, mas é bom pensar que são dadas por um júri, com critérios e conhecimentos musicais que variam muito. Prefiro avaliar a qualidade do meu trabalho por outros parâmetros.

4) E você já está trabalhando para muitas outras conquistas dentro da música?

Meu objetivo é produzir muito, me aliar a músicos com propostas de qualidade e fazer boa música. Tenho trabalhado muito, procurado me aprimorar cada vez mais. E o trabalho nunca acaba, sempre há o que fazer. Procuro não ter preconceitos, ouvir de tudo, me abrir a possibilidades, estabelecer parcerias.

5) Você lançou o seu CD, em abril de 2001. Fale pra gente sobre ele.

Samba Solto é um disco que lança uma leva de novos compositores, como Kristoff Silva, Renato Negrão e Makely Ka. Faz releituras de músicas mineiras que ficaram esquecidas nos anos 80, de autoria de John, hoje Pato Fu. Ainda traz músicas de alguns dos melhores compositores da safra atual, Flávio Henrique, Chico Amaral, Sérgio Santos. E reverencia Milton Nascimento, o maior nome da nossa música. É um disco de música mineira, mas pensado e produzido de uma maneira nova. Não o considero um disco de cantora, pois a minha voz não está em primeiro plano e sim costurada a uma sonoridade muito diferente. O disco tem participação da banda fixa que me acompanhava naquele momento: Kristoff Silva, que além de violões toca uma infinidade de instrumentos, o baixista Marco Aur, o violinista Paulo Thomaz e o auxílio luxuoso de Décio Ramos, percussionista do Uakti. A produção foi feita por Anvil FX, um artista de música eletrônica, mas todos os sons produzidos no disco são acústicos. Samba Solto é um disco inclassificável, talvez por isso considerado um pouco difícil, como tudo que é diferente e inesperado.

6) Quais os principais obstáculos que você vem enfrentando pra ter seu nome reconhecido nacionalmente?

Minas não tem mídia nacional, não tem indústria fonográfica. Tem sim, uma cena musical cada vez mais rica e de qualidade. É necessário que o artista ou se mude daqui ou que leve seu trabalho para fora. Acredito que quanto mais diferenciado um trabalho é, mais dificuldades ele tenha pra se estabelecer. São muitos os nomes que trabalham e tem seu talento reconhecido por aqui, mas que não conseguem expandir seu campo. Existem as leis de incentivo à cultura, mas são poucas as empresas que se interessam por patrocinar cultura. Existem exemplos louváveis como a Telemig Celular, mas isso ainda é muito tímido no Estado. Acredito que as empresas ainda não acordaram para o valor da nossa cultura e para o retorno que isso pode dar para elas.

7) O que você está achando desses festivais de música que tem acontecido nas emissoras de TV? Vc tem vontade de participar algum dia desse processo?

Quais festivais? A Globo tentou fazer aquele último há uns dois anos mais ou menos, mas ficou totalmente no meio do caminho, premiando uma composição ridícula e imediatamente esquecida. A gente não pode esquecer a imensa importância que os festivais tiveram na história da nossa música popular, mas ou as emissoras fazem uma coisa de verdade ou podem esquecer, porque não dá credibilidade. Os festivais revelaram praticamente todo mundo que está aí até hoje, Chico, Gil, Elis, Mílton, Caetano, só pra falar uns poucos nomes. Se não tem seriedade, não dá. Não teria nenhum problema em participar de um festival sério. Mas se você se refere a esses Reality shows tipo Fama, não vi, mas estou totalmente fora. Acho que esses programas expõem o artista de um jeito constrangedor e as tvs não estão atrás de coisas que não possam ir dali direto pro Faustão ou Xuxa.

8) E o mercado de novos talentos com a crise da indústria fonográfica?

Você acredita que as pessoas que estão tentando um lugar ao sol nesse momento podemos er prejudicadas? Acho que é um momento especialmente delicado onde muita coisa vai mudar. A indústria fonográfica vem sofrendo com a pirataria, principalmente nos segmentos de música ultra-popular. Acredito que a indústria, junto com a grande mídia, é co-responsável pelo nosso empobrecimento cultural, por não ter contribuído para a formação de um público mais exigente e ter socado goela a baixo do povo uma infinidade de porcarias. Não creio que ao longo das últimas décadas a grande indústria tenha se importado com o quesito talento. Salvam-se obviamente selos como a Trama, por exemplo. Um aspecto positivo é que a indústria vem percebendo que a fatia de mercado consumidora de música de qualidade gosta de ter o disco original, boa cópia do disco e do encarte. Pode ser uma chance para a formação de um mercado alternativo que na Europa e América do Norte sobrevive bastante bem.

9) Conte pra todo seu público, os seus próximos projetos na carreira

Estou captando recursos para o meu próximo cd. Pretendo desta vez colocar minha voz como ponto principal do disco. Estou fazendo pesquisa de repertório, tanto com músicas inéditas quanto com regravações, o que é um trabalho muito artesanal. Também tenho feito shows em Belo Horizonte. No mês que vem me apresento no projeto Prata da Casa, no Sesc Pompéia em São Paulo, e estou em negociações com José Miguel Wisnik para um show em parceria no Museu de Arte da Pampulha.

10) Deixe seu recado final pra seu publico e para todas as pessoas que ainda não conhecem seu trabalho

Meu trabalho é pra quem tem curiosidade por coisas novas e fora do padrão. Curiosidade é um artigo raro e precioso, e não só como artista, mas como ouvinte, fico feliz ao ter contato com trabalhos que fogem à pasmaceira de letras manjadas, músicas nada originais e aquele verniz de produção estereotipada. Quero agradecer aos usuários e ao MV portal de cifras por esta oportunidade de falar um pouco da minha produção. Beijos, Alda

Alda e Ná Ozzeti: Deixando um recado final pra os fãs!

 

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